
De Colombina[cansados ventos!já desfilei incontáveis noites.Atrevi-me ao dia.Chega Arlequim
vai-te sem demora.
Não me retorne em outra máscara
te seria bem mais como Faustine.
Chega Arlequim
sou eu quem te conhece em dobro.
Percebes no cabide
o que descansa?
É Colombina[já passada a tarde tristebrilhante, cândida...Diz, vez em quando(nos intervalos dos suspiros):“A sinceridade não me é uma obrigação para com o outro, ora pois, se não é o direito constante de ser eu mesma!”Ri satisfeita e retoma(que olhos que brilham!)a hiberna adquirida.
Não me venha Arlequim
com tuas mãos de lobo
não estou a dizer que não me causam mais arrepios
que me causam dor no entanto.
Abandona esta carícia
aquela que dá a mim e as outras
e tuas palavras inebriantes
me chegam quase de plástico.
Então que venha o outrosem máscaras e fantasiaFaces múltiplas talvez(o que seriam senão expressões de si mesmo?)Faces sim[conexão dentro fora.Interesso-me pelas faces[aquelas que se sobrepõem em intervalos irregularesDiria que a leveza é um atributodestes de faces diversas.Até posso confessar o meu apreço pelas máscaras...massabesinto falta das faces....As máscaras têm sido fabricadas alimentadas pelo medo[limitada matéria de construção.Faleceem meu tempoas máscaras filhas do sorrisonetas do entusiasmo.
Vai-te Arlequim
vai-te em boa hora
deixa-me desfazer a maquiagem
(já não me é útil!)
O outro me verá em faces nuas
[todas elas.
Esquece-me também Pierrot
deixa a mim vir o outro!
Sim, prometo que de ti lembrarei.
Deixa disso...
Desiste Pierrot
não vou vesti-me de Vênus.
...Animo-me ainda com as alegorias[num súbito instante.Aquela que hoje me compõeem sutileza tamanhapenetra por entre máscaras e tamborins.O somjá é outro que me possui.Graves e agudosjorrados ao vento.Aos carnavaisjá lhes dedico silêncio sóbrio.Algazarras e boêmiasquarta feira em cinzas.Aquieta-te Pierroto outro saber-te-áAcaso não pertence a mim o cabide de Colombina?!Não lagrimes mais Pierrotteus choros não me aprisionam como outroraTe disse?aprendi a chorar.Larga Pierrota barra de minha saialiberta a ti e a mimdos incômodos pesares
.
Eis-me aquia desfazer-me deste círculonão quero nem saudades!+
+
Arlequim, Pierrot
é tempo!
Vão, vão...
já ouço ruídos
passos do outro a caminho.
Dêem-me tempo
para colher as flores
[odores e enfeites.
E acolha-me o outro.Descanse-me o outro.E dormepobre Colombinanão te pertence este encontro.Quanto ao outro,aquele que chega pela porta da frente,uma prévia orientação:Acautela-te do que te espera[não te assuste a minha nudez da faceNão te exaspere os suspiros de Colombinaadormecida ao cabidePode ser que em minhas ausênciasde lá(do armário)ouças[aquela que a(u)lto pensa:“Inferno é ser a parte do Todo
Paraíso é ser o Todo na parte
Partes são momentos do ser Todo
Todo são os momentos da parte.”
E não te esqueças deà noite entre meus cachosacomodar os dedos[me faz dormir...O que estás a espiar Arlequim?!deixa-me preparar a sala para o outro.Não te foi ainda Pierrot?!enxuga as manchas do meu tapeteinsistes em pelo outro ser conhecido!
!
Deixem-me
em minha espera
As vestimentas
ao aroma de ervas frescas
preparadas estão sobre a cama.
E minhas faces
ousando de suas multilateralidades
compõem a própria melodia
aquela que liberta.
Suzane Vasconcelos
Novembro/2005